Semblantes foi um disco da banda Daphne lançado em 1996 e considerado, até provas contrárias, o primeiro CD de rock maranhense da história.
O comentário de Trabulsi me fez refletir até que ponto ele estaria certo.
Como o assunto é música maranhense, o que, por si só, significa mexer numa bomba-relógio, terei todo o cuidado para manusear a questão, já sabendo que serei espinafrado como sempre sou quando dou opiniões nessa seara.
O primeiro cuidado é dizer que faço parte desse cenário desde 1988. No ínício e desde então, tocando em bandas. De 1990 para cá, divulgando os artistas no jornal, TV e rádio. Tenho um acervo gigantesco de discos maranhenses, já escutei mais de uma vez todos eles e trabalho com eles, como programador musical no meu dia-a-dia, há 16 anos.
O segundo cuidado é dizer que a discussão é sobre importância dos discos, não sobre sua qualidade e muito menos sobre a qualidade de seus artistas. Semblantes, por exemplo, pode ser visto como um disco importante, mas não necessariamente como um disco bom. Da mesma forma, um disco excepcionalmente bem gravado e de um artista talentosíssimo pode não ter sido um disco importante.
Chegamos então ao terceiro cuidado, o de definir o que é um disco importante para essa discussão. Lendo o post de Natanael Castro, infiro que ele considera discos importantes aqueles que tiveram repercussão histórica, pioneirismo em certa medida, abrangência e, claro, qualidade musical. Incluiria nesses critérios o de influência para artistas seguintes e a capacidade de sobreviver ao tempo em sua relevância.
Não cabe a mim concordar com Natanael na sua lista, nem com Trabulsi em sua crítica, nem com lista nenhuma que já tenha sido ou possa ser feita, tanto que eu mesmo, com tantos discos maranhenses nas costas, jamais ousei fazer minha própria seleção. Em relação ao Top Five de Natanael, apenas agradeci em nome da Daphne e me senti verdadeiramente honrado pela escolha e por ter participado desse álbum quando ainda tinha meus 20 e poucos anos.
O que cabe a mim é estimular o debate e tentar traçar observações sobre o assunto. É o que farei, mantendo a preocupação de ter todos os cuidados, conforme já aprendi em 26 anos de jornalismo cultural.
A primeira coisa que me chamou atenção na crítica de Trabulsi foi a frase "sem pesquisar, posso citar 10", o que me gerou duas sensações. A primeira é a de que, nessa questão de disco importante ou não, eu não pesquisaria para saber de sua relevância porque, se é importante, viria logo à minha mente. Quais são os times mais importantes da Espanha? Não precisaria pesquisar para dizer logo de cara que são Barcelona e Real Madrid. Se eu tivesse que pesquisar, não seriam tão importantes assim.
Na sequência, já que não pesquisaria, comecei a checar quais seriam esses 10 discos que viriam naturalmente à minha mente e de cara vieram 8. Depois, continuei a vasculhar na mente e vi que não encontraria mais.
Comecei então a medir a importância desses discos, descartando, reitero, sua qualidade técnica e a do artista como critérios primordiais. Não estou incluindo entre esses 8 discos os 5 do Top de Natanael Castro (Velhos Moleques, Semblantes, Lances de Agora, Roots Reggae e Bandeira de Aço). Estou partindo da lógica de Trabulsi, que, aparentemente, concorda com 4 dos elencados pelo autor do post e discorda da inclusão de Semblantes, no lugar do qual haveria 10 outros mais importantes.
Vamos então aos 8 que surgiram quando me pus a pensar no assunto.
O primeiro é O Som e o Balanço de Nonato e Seu Conjunto. Poderia sim estar entre os 5 mais. É um disco riquíssimo, com canções entoadas até hoje, linhas rítmicas altamente copiadas, de uma banda antológica da música maranhense, de onde saíram instrumentistas consagradíssimos. É um disco que sobreviveu ao tempo e sempre foi importante.
Depois vieram os discos do Cacuriá de Dona Teté e do Tambor de Crioula de Mestre Felipe, patrocinados pelo Governo do Estado no fim dos anos 90. Possivelmente, são os dois discos mais importantes da cultura popular do Maranhão. A partir deles, passou-se a ter uma referência fonográfica de qualidade para o estudo e a apreciação desses ritmos. Mas há um elemento a se levar em conta na quantificação da importância desses álbuns em si, dos álbuns estou dizendo, não dos artistas nem das manifestações, Os artistas já eram consagrados antes de seus discos. Como consequência, enxergo esses dois CDs mais como um registro (tardio, diga-se) das obras inigualáveis de Teté e Felipe do que como um divisor de águas em suas carreiras. Os álbuns em si acrescentaram pouco à dimensão gigantesca do que significam e já significavam esses dois mitos.
É uma sensação semelhante à que tenho quando me lembro de Shopping Brazil, o quarto trabalho que veio à minha mente. É um disco extraordinário porque César Teixeira é um artista extraordinário, mas, da mesma forma que vejo os discos de Teté e Felipe, o enxergo como um registro de uma parte (ínfima, diga-se) de uma obra absurdamente vasta e linda. O disco em si, mais uma vez, poderia ser mais importante se não desse essa impressão de que surgiu mais para dar conta de um tempo perdido do que para apresentar novas linguagens, nuances, marcar época.
O quinto e sexto trabalhos são os discos de estreia de Zeca Baleiro e Rita Benneditto. Por onde andará Stephen Fry e Rita Ribeiro foram fundamentais para a consolidação da ideia de que a música maranhense poderia conquistar o Brasil. Foram igualmente importantes para garantir nas rádios locais a inclusão definitiva dessa música e o desafio para que os artistas que aqui ficaram seguissem o mesmo caminho. O Prêmio Universidade FM, criado por Francisco Gonçalves e Zeca Soares, nasceu porque esses discos foram lançados. Zeca Baleiro e Rita Benneditto até hoje cantam músicas desses discos em seus shows. A frustração vendo hoje é que, apesar do clima favorável da época, os discos não criaram seguidores. Não apareceram outros Zecas Baleiros e Rita Ribeiros. A música do Maranhão não aconteceu ainda em nível nacional. Os discos, aliás, estão até fora de catálogo, viraram peças raras de serem encontradas.
O penúltimo disco que me surgiu foi o EP da Catarina Mina, As aspas serão explicadas adiante. É uma lembrança justa, na medida em que a banda era um fenômeno de crítica e público quando surgiu, por volta do início dos anos 2000, e Djalma Lúcio se tornou uma espécie de "guru" dos jovens talentos de hoje, mesmo recluso (ou precisamente por isso). Apesar de ter somente 4 canções, e uma delas ser uma releitura dos Smiths, simboliza uma ponte temporal entre o pop que se fazia nesses tempos remotos e o que se faz hoje. O disco em si não sobreviveu tanto, mas a aura em torno da Catarina Mina sim.
Por fim, veio-me à mente a produção de Chico Buarque para a obra de João do Vale, em 1981, mas esse disco não é exatamente maranhense, então vamos deixá-lo para lá.
E onde é que entra o Semblantes nessa discussão?
Semblantes foi um divisor de águas no rock do Maranhão. Antes dele, ninguém havia gravado um disco. Lembro-me bem das dificuldades dos técnicos de gravação para encontrar as referências de timbres, taxas de compressão, equalizações. Não se tinha hábito de gravar guitarras distorcidas, tanto que elas estão sofríveis no disco.
O lançamento de Semblantes se deu em um Teatro Arthur Azevedo lotado, no dia 29 de agosto de 1996, na primeira vez que uma banda de rock local, nacional ou internacional tocou nesse palco depois da reforma do início dos anos 90 - antes, a Ácido e outras duas bandas tocaram por lá. A ocasião marcou o primeiro lançamento de CD de rock maranhense no Arthur Azevedo.
A gravação de Semblantes estimulou diversos artistas e bandas a fazerem o mesmo. Tínhamos a sensação de que pensavam assim: "se esses garotos conseguiram fazer, nós também conseguimos". Pena que, na prática, pouco foi feito e eu incluo nessa leva de CDs que saíram sob o impacto do CD Semblantes o CD da Paul Time e o próprio Antes que a poesia acabe, de Alberto Trabulsi. Não é uma provocação, mas a gravação de Antes que a poesia acabe se deu no mesmo contexto de gravações da Daphne imediatamente posteriores ao Semblantes, no estúdio Abba Sound, na rua das Quaresmeiras (Trabulsi terminaria o álbum em Recife), com os mesmos técnicos Anuacy Fontes e Paulo Gustavo Lins, dono do estúdio. De certa forma, mesmo em se tratando de estilos diferentes, Semblantes abriu caminho para que outros trabalhos acontecessem, no sentido de que era possível fazer e estimulando mesmo que se fizesse melhor que a Daphne, o que certamente conseguiram - Trabulsi, com seu imenso talento de letrista e compositor, foi um deles que conseguiu, não tenho dúvida.
A marca de Semblantes na música pop-rock do Maranhão só veio a ter paralelo com o lançamento da Catarina Mina, do qual já falamos, em 2002, ou seja, 6 anos depois. Ainda sim, Semblantes manteve-se como a principal referência de rock autoral no Maranhão até o boom dos anos 2005 em diante, quando finalmente as bandas locais começaram a gravar com mais frequência, como a The Mads, a Página 57, Xnoz, Cartahoc, Mr. Simple, até chegarmos ao cenário de hoje.
Até hoje, recebo diversas mensagens de pessoas procurando o CD Semblantes, ou dizendo orgulhosamente que possuem um exemplar, que já ouviram um milhão de vezes e nunca se cansam de ouvir. Tenho certeza de que mexeu com a música maranhense e sobreviveu ao tempo.
Estar ou não em uma lista é um detalhe. Cada um faz a sua. Eu, por minha vez, apenas agradeço aos que se lembram da Daphne, com ou sem lista
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