terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Semblantes de uma lista de discos

Natanael Castro incluiu o CD Semblantes na lista dos cinco mais importantes da música maranhense e Alberto Trabulsi afirmou que há uma lista imensa de discos à frente e que, sem pesquisar, diria pelo menos uns 10.

Semblantes foi um disco da banda Daphne lançado em 1996 e considerado, até provas contrárias, o primeiro CD de rock maranhense da história.

O comentário de Trabulsi me fez refletir até que ponto ele estaria certo.

Como o assunto é música maranhense, o que, por si só, significa mexer numa bomba-relógio, terei todo o cuidado para manusear a questão, já sabendo que serei espinafrado como sempre sou quando dou opiniões nessa seara.

O primeiro cuidado é dizer que faço parte desse cenário desde 1988. No ínício e desde então, tocando em bandas. De 1990 para cá, divulgando os artistas no jornal, TV e rádio. Tenho um acervo gigantesco de discos maranhenses, já escutei mais de uma vez todos eles e trabalho com eles, como programador musical no meu dia-a-dia, há 16 anos.

O segundo cuidado é dizer que a discussão é sobre importância dos discos, não sobre sua qualidade e muito menos sobre a qualidade de seus artistas. Semblantes, por exemplo, pode ser visto como um disco importante, mas não necessariamente como um disco bom. Da mesma forma, um disco excepcionalmente bem gravado e de um artista talentosíssimo pode não ter sido um disco importante.

Chegamos então ao terceiro cuidado, o de definir o que é um disco importante para essa discussão. Lendo o post de Natanael Castro, infiro que ele considera discos importantes aqueles que tiveram repercussão histórica, pioneirismo em certa medida, abrangência e, claro, qualidade musical. Incluiria nesses critérios o de influência para artistas seguintes e a capacidade de sobreviver ao tempo em sua relevância.

Não cabe a mim concordar com Natanael na sua lista, nem com Trabulsi em sua crítica, nem com lista nenhuma que já tenha sido ou possa ser feita, tanto que eu mesmo, com tantos discos maranhenses nas costas, jamais ousei fazer minha própria seleção. Em relação ao Top Five de Natanael, apenas agradeci em nome da Daphne e me senti verdadeiramente honrado pela escolha e por ter participado desse álbum quando ainda tinha meus 20 e poucos anos.

O que cabe a mim é estimular o debate e tentar traçar observações sobre o assunto. É o que farei, mantendo a preocupação de ter todos os cuidados, conforme já aprendi em 26 anos de jornalismo cultural.

A primeira coisa que me chamou atenção na crítica de Trabulsi foi a frase "sem pesquisar, posso citar 10", o que me gerou duas sensações. A primeira é a de que, nessa questão de disco importante ou não, eu não pesquisaria para saber de sua relevância porque, se é importante, viria logo à minha mente. Quais são os times mais importantes da Espanha? Não precisaria pesquisar para dizer logo de cara que são Barcelona e Real Madrid. Se eu tivesse que pesquisar, não seriam tão importantes assim.

Na sequência, já que não pesquisaria, comecei a checar quais seriam esses 10 discos que viriam naturalmente à minha mente e de cara vieram 8. Depois, continuei a vasculhar na mente e vi que não encontraria mais.

Comecei então a medir a importância desses discos, descartando, reitero, sua qualidade técnica e a do artista como critérios primordiais. Não estou incluindo entre esses 8 discos os 5 do Top de Natanael Castro (Velhos Moleques, Semblantes, Lances de Agora, Roots Reggae e Bandeira de Aço). Estou partindo da lógica de Trabulsi, que, aparentemente, concorda com 4 dos elencados pelo autor do post e discorda da inclusão de Semblantes, no lugar do qual haveria 10 outros mais importantes.

Vamos então aos 8 que surgiram quando me pus a pensar no assunto.

O primeiro é O Som e o Balanço de Nonato e Seu Conjunto. Poderia sim estar entre os 5 mais. É um disco riquíssimo, com canções entoadas até hoje, linhas rítmicas altamente copiadas, de uma banda antológica da música maranhense, de onde saíram instrumentistas consagradíssimos. É um disco que sobreviveu ao tempo e sempre foi importante.


Depois vieram os discos do Cacuriá de Dona Teté e do Tambor de Crioula de Mestre Felipe, patrocinados pelo Governo do Estado no fim dos anos 90. Possivelmente, são os dois discos mais importantes da cultura popular do Maranhão. A partir deles, passou-se a ter uma referência fonográfica de qualidade para o estudo e a apreciação desses ritmos. Mas há um elemento a se levar em conta na quantificação da importância desses álbuns em si, dos álbuns estou dizendo, não dos artistas nem das manifestações, Os artistas já eram consagrados antes de seus discos. Como consequência, enxergo esses dois CDs mais como um registro (tardio, diga-se) das obras inigualáveis de Teté e Felipe do que como um divisor de águas em suas carreiras. Os álbuns em si acrescentaram pouco à dimensão gigantesca do que significam e já significavam esses dois mitos.

É uma sensação semelhante à que tenho quando me lembro de Shopping Brazil, o quarto trabalho que veio à minha mente. É um disco extraordinário porque César Teixeira é um artista extraordinário, mas, da mesma forma que vejo os discos de Teté e Felipe, o enxergo como um registro de uma parte (ínfima, diga-se) de uma obra absurdamente vasta e linda. O disco em si, mais uma vez, poderia ser mais importante se não desse essa impressão de que surgiu mais para dar conta de um tempo perdido do que para apresentar novas linguagens, nuances, marcar época.

O quinto e sexto trabalhos são os discos de estreia de Zeca Baleiro e Rita Benneditto. Por onde andará Stephen Fry e Rita Ribeiro foram fundamentais para a consolidação da ideia de que a música maranhense poderia conquistar o Brasil. Foram igualmente importantes para garantir nas rádios locais a inclusão definitiva dessa música e o desafio para que os artistas que aqui ficaram seguissem o mesmo caminho. O Prêmio Universidade FM, criado por Francisco Gonçalves e Zeca Soares, nasceu porque esses discos foram lançados. Zeca Baleiro e Rita Benneditto até hoje cantam músicas desses discos em seus shows. A frustração vendo hoje é que, apesar do clima favorável da época, os discos não criaram seguidores. Não apareceram outros Zecas Baleiros e Rita Ribeiros. A música do Maranhão não aconteceu ainda em nível nacional. Os discos, aliás, estão até fora de catálogo, viraram peças raras de serem encontradas.

O penúltimo disco que me surgiu foi o EP da Catarina Mina, As aspas serão explicadas adiante. É uma lembrança justa, na medida em que a banda era um fenômeno de crítica e público quando surgiu, por volta do início dos anos 2000, e Djalma Lúcio se tornou uma espécie de "guru" dos jovens talentos de hoje, mesmo recluso (ou precisamente por isso). Apesar de ter somente 4 canções, e uma delas ser uma releitura dos Smiths, simboliza uma ponte temporal entre o pop que se fazia nesses tempos remotos e o que se faz hoje. O disco em si não sobreviveu tanto, mas a aura em torno da Catarina Mina sim.

Por fim, veio-me à mente a produção de Chico Buarque para a obra de João do Vale, em 1981, mas esse disco não é exatamente maranhense, então vamos deixá-lo para lá.

E onde é que entra o Semblantes nessa discussão?

Semblantes foi um divisor de águas no rock do Maranhão. Antes dele, ninguém havia gravado um disco. Lembro-me bem das dificuldades dos técnicos de gravação para encontrar as referências de timbres, taxas de compressão, equalizações. Não se tinha hábito de gravar guitarras distorcidas, tanto que elas estão sofríveis no disco.

O lançamento de Semblantes se deu em um Teatro Arthur Azevedo lotado, no dia 29 de agosto de 1996, na primeira vez que uma banda de rock local, nacional ou internacional tocou nesse palco depois da reforma do início dos anos 90 - antes, a Ácido e outras duas bandas tocaram por lá. A ocasião marcou o primeiro lançamento de CD de rock maranhense no Arthur Azevedo.

A gravação de Semblantes estimulou diversos artistas e bandas a fazerem o mesmo. Tínhamos a sensação de que pensavam assim: "se esses garotos conseguiram fazer, nós também conseguimos". Pena que, na prática, pouco foi feito e eu incluo nessa leva de CDs que saíram sob o impacto do CD Semblantes o CD da Paul Time e o próprio Antes que a poesia acabe, de Alberto Trabulsi. Não é uma provocação, mas a gravação de Antes que a poesia acabe se deu no mesmo contexto de gravações da Daphne imediatamente posteriores ao Semblantes, no estúdio Abba Sound, na rua das Quaresmeiras (Trabulsi terminaria o álbum em Recife), com os mesmos técnicos Anuacy Fontes e Paulo Gustavo Lins, dono do estúdio. De certa forma, mesmo em se tratando de estilos diferentes, Semblantes abriu caminho para que outros trabalhos acontecessem, no sentido de que era possível fazer e estimulando mesmo que se fizesse melhor que a Daphne, o que certamente conseguiram - Trabulsi, com seu imenso talento de letrista e compositor, foi um deles que conseguiu, não tenho dúvida.

A marca de Semblantes na música pop-rock do Maranhão só veio a ter paralelo com o lançamento da Catarina Mina, do qual já falamos, em 2002, ou seja, 6 anos depois. Ainda sim, Semblantes manteve-se como a principal referência de rock autoral no Maranhão até o boom dos anos 2005 em diante, quando finalmente as bandas locais começaram a gravar com mais frequência, como a The Mads, a Página 57, Xnoz, Cartahoc, Mr. Simple, até chegarmos ao cenário de hoje.

Até hoje, recebo diversas mensagens de pessoas procurando o CD Semblantes, ou dizendo orgulhosamente que possuem um exemplar, que já ouviram um milhão de vezes e nunca se cansam de ouvir. Tenho certeza de que mexeu com a música maranhense e sobreviveu ao tempo.

Estar ou não em uma lista é um detalhe. Cada um faz a sua. Eu, por minha vez, apenas agradeço aos que se lembram da Daphne, com ou sem lista
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sábado, 17 de outubro de 2015

Sobre o Jornalismo militante

O recente episódio envolvendo a queixa de um jornalista local sobre atraso de pagamentos da Prefeitura a profissionais da imprensa me convence ainda mais da necessidade de discussão sobre o jornalismo militante que tanto caracteriza a profissão no Brasil.

É um assunto delicado porque mexe com pontos de vista sobre jornalismo e acusações veladas, por isso a análise deve ser cuidadosa, mas nem por isso acrítica.

Parto do princípio – e deixo claro a meus alunos – de que jornalismo e militância política não devem andar juntos. Por mais que grande parte dos profissionais ingresse na profissão com desejo de “mudar o mundo” e por mais que muitos deles realmente acreditem que determinado grupo político ou posicionamento ideológico representem “o bem”, a atividade jornalística deve sobrepor essas idiossincrasias. O jornalismo, enquanto campo do conhecimento, não tem partido, não tem ideologia, não é simpático a ninguém.

Claro, não dá para separar jornalismo de dinheiro. O jornalismo é filho do capitalismo, quer dizer, o que conhecemos hoje sobre conceitos, teorias e práticas nasce nas redações, que, por sua vez, pertencem a empresas de comunicação, as quais, para sobreviverem, trabalham sob a lógica do capital. Jornalismo é, portanto, um negócio, dessa forma, suscetível aos humores do mercado.

Mesmo assim, é dever do jornalismo do dia-a-dia conseguir ser apartidário, não-ideológico e não-simpático. É na publicidade que a empresa deve auferir lucros e essa é uma decisão possível. O gosto pelo dinheiro é que cria o discurso de que a redação é necessariamente vendável. Deve-se pensar em formas de sustentação do negócio sem por na prateleira a profissão enquanto tal, ainda mais nos tempos atuais em que, no mundo digital, os custos de produção da informação diminuíram.

Porque o que acontece é que o grau de influência político-partidária nos textos é quase sempre um fenômeno anterior. Muitas vezes, não são os jornais ou blogs que se alinham às ideologias partidárias; eles são criados por essas ideologias e para esses fins. Defendo uma transparência nessa relação. O que chamam de controle social da informação deve incluir um rastreamento dos veículos de comunicação (no sentido de saber de onde vem todo o dinheiro) e apresentar esses dados ao leitor, que tem o direito de saber por que está lendo o que lê.

Esse tipo de controle é tão fundamental quanto os outros, sobre democratização dos meios, fim dos oligopólios ou ética na comunicação. De nada adiantam essas conquistas se o jornalismo continuar aliado ao poder público de quem recebe dinheiro.

Na Europa e nos Estados Unidos, é comum se pagar para pessoas darem entrevistas. Esse é um argumento comum para celebrar a “idoneidade” do jornalismo brasileiro. Só que lá as coisas são feitas às claras.

Durante anos, os jornalistas acusaram as redações de cercearem seu trabalho, mas quando têm a chance de ser independentes, muitos preferem um jornalismo “livre para a dependência". A alegação de que é uma profissão como qualquer outra, que precisa de dinheiro para sobreviver, e que esse dinheiro é fruto da publicidade oficial, pode ser refutada pela lida nos posts ou textos e a percepção de que a linha editorial, formalmente não vendida, é sempre simpática à linha política do grupo que faz a publicidade.

Há uma modalidade especial para isso, que é livre no Brasil (mas restrita em países como Portugal, França e Bélgica), a Assessoria de Imprensa. Seria também bem tranquilo se essa relação entre imprensa militante e governantes fosse oficializada e essa seria outra medida interessante do controle social da informação.

O fato é que para quem pensa como eu, é extremamente desconfortante observar a bipolaridade do jornalismo local, em que as pautas respondem primeiro ao objetivo de agradar aos aliados e confrontar os adversários, e depois ao de informar o leitor. O que fez o jornalista que reclamou dos atrasos de pagamento da Prefeitura que, segundo ele, prioriza o pagamento a pastores e diáconos e deixa de lado os jornalistas “que ajudaram o prefeito a se eleger” foi mais que um desabafo ou cobrança: foi uma confissão, tanto que o post foi prontamente retirado (mas pode ser encontrado no blog do Ed Wilson) e a Prefeitura imediatamente negou o fato.

Não é porque a política local é bipolarizada que o jornalismo praticado por aqui tenha que ser. Aliás, a própria imprensa ajuda a construir a bipolaridade dessa cena política. Por que é tão difícil uma terceira via na imprensa, o desenvolvimento de um jornalismo que olhe para os dois lados com a mesma distância, o mesmo senso crítico e a mesma responsabilidade? Nada impede que isso ocorra, a não ser o comportamento dos próprios jornalistas.

Um país democrático precisa de uma imprensa vigilante. Assim, imprensa e governo não podem andar juntos. Nem imprensa e oposição. Aliás, imprensa e ninguém. A ideia de uma imprensa governista serve ao discurso único ou à divinização do governante. Porque governo não é povo, governo presta serviço ao povo. Então, serviços mal prestados são pauta para a imprensa. Serviços bem prestados devem ser rotina, e rotina não é pauta em jornalismo. O que vemos nas capas dos jornais locais como notícias muitas vezes são a personificação na presidente, no governador ou no prefeito de ações rotineiras, fenômeno aliás semelhante ao que ocorre em alguns países europeus, como França, Portugal e Itália, que praticam também um jornalismo estatal, que transforma o ato de governar em pauta.


sábado, 24 de janeiro de 2015

Por que a música brasileira acabou?

A música brasileira, da forma como um dia foi consolidada, acabou.

O que os brasileiros do século XXI conhecem, nas ruas, nas praças, nas festas, ou é música brasileira descartável, ou a música internacional, ou a música de sua localidade, quando ela é minimamente estimulada.

Aquele arcabouço de produções que tornou inesquecível gente do naipe de Villa-Lobos, Tom Jobim, Pixinguinha, Chico Buarque, Caetano, Gil e tantos outros virou peça de museu, ou habita o imaginário de quem um dia o conheceu.

Tudo bem, está tudo aí na Internet. Mas sem sofrer recall no dia-a-dia, desperta pouco interesse.

A música brasileira é hoje apenas repertório de cantores de boteco ou de shopping. No máximo, trilha sonora de novela ou símbolo de status para jovens que a reinterpretam.

O fato é que ela não é mais produzida, nem pelos próprios atores que a consagraram.

Das 100 músicas mais tocadas do país, nenhuma pertence à chamada MPB.

Jovens talentos que tentam prossegui-la estão escondidos no limbo do alternativo. Pior, muitas vezes pouco acrescentam, porque repetem as fórmulas dos seus ídolos.

Os últimos grandes discos de Gilberto Gil, Caetano e Chico têm mais de 15 anos. “Quanta”, “Livro” e “Paratodos” foram os últimos registros realmente interessantes dessa turma, com músicas que ainda “pegaram” no público.

De lá pra cá, eles e os outros cardeais da MPB alternam discos inexpressivos e lançamentos ao vivo dos mesmos sucessos de sempre.

A falência das gravadoras não é culpada. Senão, música nenhuma de ninguém faria mais sucesso, e o que mais existe por aí é hit.

Pode-se alegar que parte dessa turma já está setentona, o que sugeriria uma natural desaceleração produtiva. Como explicar, no entanto, que o fenômeno teve origem quando ainda eram cinquentões?

E por que gente como Zeca Baleiro, Moska, Chico César e Lenine também representam essa música que acabou? Eles parecem já terem feito suas obras-primas e, mesmo relativamente jovens, vivem da fama que conquistaram com elas.

Não sei ao certo qual foi o problema. Esgotamento criativo? Falta de adaptação aos novos tempos? Emburrecimento coletivo? A postura excludente da mídia?

É um fenômeno de difícil explicação. Um cara na idade de Moska não pode estar sofrendo esgotamento criativo. Esses artistas são estruturados o suficiente para se adaptar a qualquer tempo, graças a assessorias competentes que entenderiam qualquer plataforma de distribuição de música. E dizer que a população está mais “burra”, com tanta informação ao alcance, é pretensioso.

A mídia sim colabora para que essa música tenha caído no esquecimento (apesar de ter sido ela quem a elevou ao olimpo), pois quase não mais a divulga.

Só que mídia vive de novidades e, quando não há novidade ou esta não é interessante, dentro do que conhecemos como MPB, ela silencia.

Isto significa que a maior responsabilidade está em quem produz. Ainda acredito que se alguém compor uma nova “Garota de Ipanema”, essa música vai estourar.

O ponto é esse: alguém ainda tem capacidade para fazer música “de qualidade” e “vendável”?

Existem centenas de compositores de músicas “ruins”, de refrões fáceis, da mesma sequência de acordes, que falam mais para o corpo do que para a mente. O espaço deles está garantido nos Faustões e Altas Horas da vida.

Mas onde estão os compositores das músicas minimamente mais elaboradas, relativamente originais e que fazem mais pensar do que rebolar?

Eles não estão só envelhecendo ou regravando seus próprios sucessos. Eles também estão escondidos e, pior, muitas vezes optando estar escondidos.

A Internet nasceu celebrada como a antítese da indústria cultural, o lugar da liberdade de criar, de divulgar e de gerenciar a própria arte. Passadas uma ou das décadas, o que vemos é que a liberdade não gerou visibilidade.

A Internet tem como público a própria Internet. O artista lá originado e que ainda só está lá, porque acha que assim se mantém “independente” e “atualizado das tendências”, é um ilustre desconhecido no mundo real.

Criou-se uma distância entre a música que domina os lugares reais e a que circula nas redes e, infelizmente para quem gosta de “boa” música, coube à música “ruim” dominar os lugares de verdade.

Por isso, por mais que possa haver gente fazendo música interessante, enquanto continuarem no universo alternativo, assistiremos a mais e mais duplas sertanejas e lepo-lepos despontarem.

As demonizadas gravadoras pelo menos possuíam “olheiros” e realizavam audições para selecionar artistas. Com tudo mundo “livre” para gravar e se autopromover, há um exército de artistas perdidos, correndo feito barata tonta sem ter a menor ideia do que fazer para alcançar notoriedade.

É necessário quebrar o discurso de que basta a Internet. Levando em conta a quase infinita quantidade de músicas que circulam nos sites de compartilhamento, as que realmente “acontecem” obedecem a porcentagens desprezíveis de possibilidade.

O primordial é concorrer com as bobagens que escutamos produzindo algo realmente interessante e para todo mundo conhecer. E, claro, saber gerenciar a carreira, correr o mundo, aparecer na TV.

Como fazer? Pressuponho que estar fisicamente no mundo, fazer pequenas coisas como mostrar a música para os amigos sem que eles tenham que estar online, e grandes como fazer shows, levar o material para a grande mídia e ter uma música que “pegue” e seja “de qualidade” são passos fundamentais.

Com exceção da parte sobre “qualidade”, é exatamente isso o que os caras da música “ruim” fazem.


A ressurreição da música brasileira passa por essa postura também. Porque morta ela já esta.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O dilema entre reescrever a história ou suprimi-la

Circula nas redes sociais um abaixo-assinado sugerindo ao Governo do Estado que a Maternidade Marly Sarney passe a se chamar Maternidade Maria Aragão.

Certamente, Maria Aragão foi uma pessoa pública mais próxima da população e todas as homenagens a ela serão sempre justas.

A proposta da mudança de nome, porém, deixa transparecer outra intenção: a sutil iniciativa de erradicar do mapa de São Luís a lembrança do nome “Sarney”.

A questão da Fundação da Memória Republicana passa um pouco por aí, e felizmente Flávio Dino tem tido equilíbrio para ponderar toda a complexidade que cerca o assunto.

Trata-se de um prédio público que, com o tempo, foi servindo de museu particular do ex-Presidente, ao mesmo tempo em que o acervo desse museu passou a ser de interesse público e não pode simplesmente ser jogado fora.

Queiramos ou não, os diversos governos anteriores foram legitimados pelo voto popular (exceção à volta de Roseana ao poder em 2009) e atribuir a prédios públicos nomes de parentes ou pessoas bem quistas fez parte dessa legitimação.

Em tempo: em 2013, o artigo da Constituição Federal que proíbe bens públicos de receber nomes de pessoas vivas foi redigido, abrindo margem para que isso pudesse ocorrer.

Há duas semanas, Flávio Dino anunciou decreto que impede, daqui para a frente, o batismo de prédios do Estado com nomes de pessoas vivas. A medida foi o combustível para que surgissem vozes querendo retroagir na questão, embora o decreto em si não seja retroativo.

O que fazer com os prédios já batizados, como a Maternidade Marly Sarney, o Fórum Desembargador Sarney Costa, a ponte Bandeira Tribuzzi, o Hospital Carlos Macieira, etc?

A imagem de duas ou três pessoas próximas ao governador, sentadas ao redor de uma mesa, decidindo que prédios devem mudar de nome, parece pretensiosa.

Outorgam para si o papel de juiz da coisa pública, papel que o próprio slogan de campanha do candidato vencedor desautoriza em sua semântica: “vamos governar para todos”. “Todos” é palavra inclusiva; o julgamento sobre quem merece ou não ser nome de edificação, por seu turno, é excludente.

Por mais que estejamos nos referindo a uma “herança maldita”, dos problemas do Maranhão que o governador deve se preocupar em resolver, este é dos mais irrelevantes.

Deve-se separar o desafio de reescrever a história do Maranhão da tentação de suprimir dessa história sujeitos e ações que, mal ou bem, a fizeram. Pelo ângulo inverso, os regimes ditatoriais costumam fazer semelhante: assumem o poder e expurgam tudo e todos que simbolizam o contraditório.

De certa forma, o rebatismo de prédios públicos pode reduzir o atual governo à mesma pequenez que quer combater, a de governar para “amigos” e “escolhidos”, a começar pelo simbolismo das eventuais renomeações.

Até porque, se partirmos para a reavaliação de nomes pelo que o homenageado representa, Luís Rei de França, o IX, apesar de santo, está, enquanto mortal, longe de ser unanimidade entre os historiadores – conversor de judeus, subjugador do povo pela fé para ampliar poder e posses da Igreja Católica, no século XIII.

Sem ir muito longe no tempo, o ex-governador João Castelo dá nome ao estádio de futebol, e o decreto de Flávio Dino inclui entre os nomes proibidos para batizar bens públicos, além dos vivos, pessoas que violaram direitos humanos durante o Regime Militar e que tenham sido incluídas no Relatório Final da Comissão da Verdade.

Embora não tenha sido citado em tal relatório, Castelo tem em sua biografia a repressão violenta aos estudantes em 1979.

Entretanto, hoje aliado de Dino, o ex-governador está sendo poupado. Seu nome não entrou nem deve entrar na pauta dos rebatismos.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Música maranhense contemporânea: observações para reflexão

Seguindo os exemplos de Bruno Azevedo e Reuben da Cunha , também vou dar meus pitacos sobre o momento cultural de São Luís. Certamente, com muitas discordâncias, que não convém esmiuçar, já que tudo é questão de opinião e de lugar de onde se fala. O que concordo mesmo é que muita coisa está acontecendo, a ponto de instigar escritores tão talentosos a registrá-la em palavras e um cara como eu, que não sou escritor, a propor mais elementos para a discussão.

Parto do seguinte princípio: o momento é de se celebrar tudo aquilo que os dois textos elencam, mas isso não significa deixar de refletir. O principal ponto positivo, para mim, é a conquista definitiva de algo pelo qual muito se lutou: a legitimação como “música maranhense” da música de vários estilos. Hoje, a gente vê com naturalidade bandas e artistas pop cantando nas festas da Prefeitura, por exemplo. Oficialmente, deixamos de ser apenas Carnaval e São João.

Estamos vendo muita coisa boa: aumento da produção de discos entre as bandas e novos artistas, aumento da quantidade de shows em geral, aumento do trânsito de parte dessas bandas e novos artistas para outros Estados, renovação de talentos e um processo em andamento de consolidação de um público interessado e entusiasmado.

Esse cenário é digno de elogios, tanto que estes não faltam, e boa parte deles são justos. Por isso, esse texto aqui não quer reverberar os mesmos elogios que vemos em outros textos e nas redes sociais. O que farei a seguir é apenas acrescentar às loas já disseminadas algumas observações que julgo pertinentes, porque é o que vejo, de forma misturada: aspectos elogiáveis e aspectos a serem discutidos.

Peço - sem grandes esperanças, admito, pelas experiências vividas até agora - que eventuais leitores que não compartilhem das opiniões não as tomem como agressão, ódio, vingança, desespero, porque é preciso entender que também sou um entusiasmado de tudo o que está acontecendo, tenho e ouço boa parte do que é produzido, aliás, diria que quase tudo. Justamente por isso desenvolvi um senso crítico, que, reitero, me parece fundamental para o debate de qualquer contexto musical.

Para começar, temos que rediscutir a ideia de que na música contemporânea de São Luís só podem ser permitidos elogios. A crítica é intrínseca à produção artística desde que o mundo é mundo, mas, pelo que percebo, ainda é vista por aqui como “estraga-prazeres”, “inveja”, “cobiça”, “recalque”. Como já ouvi em uma roda de conversa, “em São Luís, é proibido ter opinião”, sensação que precisa ser modificada, pois a opinião gera reflexão, que gera ação, que gera mudança.

Precisamos rever também o sentimento de que o artista, se faz parte do atual cenário, tem qualidade indiscutível, quando na verdade, há trabalhos de qualidade variável, como há de ser em qualquer lugar e em qualquer situação. Tomo como critérios as questões técnicas (afinação, timbragem, mixagem, execução) e estéticas (proposta, roupagem). No primeiro caso, ouço gravações primorosas e outras deficientes, possivelmente na mesma proporção. Já no segundo, percebo uma desproporcionalidade entre trabalhos com alguma originalidade (poucos) e outros “fakes” (a esmagadora maioria).

A discussão sobre originalidade na música daria um tratado sem fim – certamente nada é original nos dias de hoje, talvez nunca tenha sido – mas dá para perceber quais artistas tentam impor alguma identidade a seu trabalho e quais se preocupam em “seguir tendência”, possivelmente com medo de não serem aceitos caso não se pareçam com alguém consagrado.

A natureza juvenil de boa parte do público que vem se construindo nesse cenário – garotos e garotas que ainda não desbravaram suficientemente o mundo da música e, portanto, pouco conhecem as referências maiores que seus ídolos seguem – vem a calhar para esse tipo de artista. O cara soa como “novo” para um público para o qual tudo é novo.

Não estou dizendo com isso que o trabalho “fake” é ruim. Pelo contrário, há gravações belíssimas, execuções precisas, muitos músicos que conheço e sei que são bons. Mas, a não ser que o objetivo seja fazer música para curtição – e essa questão do “para que estou fazendo isso?” me parece importante – um mínimo de identidade própria é vital para a consolidação de qualquer carreira musical.

Claro, não sou generalista. Alguns estilos são inegociáveis. Não se espera de uma banda de heavy metal, por exemplo, grandes preocupações com identidade própria – o mesmo poderia se dizer do blues ou do samba de raiz. O estilo define a música e a questão da qualidade recai mais para os requisitos técnicos do que para a originalidade da proposta. Mas no amplo universo da música brasileira e da chamada música pop, universo que tem sido muito explorado em São Luís, tenho ressalvas para trabalhos que parecem desprezar a busca por identidade.

Ao ouvir alguns deles, tenho a sensação de que o artista ou a banda escolheram como modelo outro artista ou banda consagrados nacional ou internacionalmente, escutaram-no à exaustão, identificaram seus riffs, melodias, timbres e equalização de voz, compuseram músicas à sua imagem e semelhança e decidiram gravar.

O resultado é um disco muitas vezes agradável, mas que poderia ser de qualquer das bandas ou artistas que serviram de inspiração, com o evidente desnível que as circunstâncias técnicas acarretam (incluindo aqui pronúncias deficientes do Inglês, quando é o caso). Cria-se o “fake”, o som que “já ouvimos antes”, só que sem contexto. Parece não haver a menor relação entre a vida do artista, seu dia-a-dia, o bairro onde mora, as pessoas que conhece, a situação do país, essas coisas, com a música que ele faz, que muitas vezes lembram o frio europeu ou a sisudez das grandes metrópoles brasileiras. Letras em português ajudariam muito a diminuir esse hiato.

A arte é livre, obviamente. O artista faz e deve fazer o que quer, mas quando opta por esse tipo de divórcio ele cria um mundo paralelo, cuja validade parece menor – até surgir outro som da moda e outro artista ou banda a fazê-lo com a mesma total aplicação. A saída para isso é buscar uma identidade, não tem outra.

Uma voz tão importante como a de Pedro Alexandre Sanches teceu inúmeros elogios a tudo o que viu quando esteve no último BR-135, mas se vocês lerem com atenção ele se encantou mesmo foi com o clima de efervescência, as excelentes pesquisas de Bruno Azevedo, Karla Freire, Ramúsyo Brasil, a regionalidade de alguns artistas, a louvável iniciativa de Alê Muniz e Luciana Simões em fazer tudo isso acontecer, o fato de estarmos em um lugar esquecido com tanta coisa boa a mostrar, e não com a música maranhense ali mostrada – com exceção da “brincadeira” de André Grolli e Bruno de satirizarem o brega. O restante ele não comentou. Passaria pelo fato de não ter visto nada de surpreendente justamente por não ter uma “cara” mais autêntica?

A longevidade dos artistas ou bandas é outro aspecto interessante a ser discutido, a despeito da saudável e necessária efervescência que a música maranhense atual tem vivido – e parte deste clima é justificado exatamente pela renovação constante, que, na minha visão, é mais que constante, é acelerada demais. O Projeto BR-135 nasceu no início de 2013 e apresentou em sua primeira edição artistas que estavam despontando e que, simbolicamente, estavam prontos para “cair na estrada”. 24 meses depois, duas das três atrações desta primeira edição não existem mais. Bandas nascem e morrem em uma proporção notável, fenômeno que muitos veem com naturalidade e que eu, ao contrário, vejo com preocupação.

Ao criar bandas o tempo todo, os artistas parecem estar sempre tentando, sempre começando do zero. Espertamente, de modo geral, esses artistas souberam reverter para uma imagem positiva a imagem potencialmente negativa deste “recomeçar o tempo todo” - pois isso significaria que não estão acertando no que fazem. Expressões como “novo projeto”, “novo som”, “nova proposta” são adotadas e vendidas como algo fantástico, fruto de muita pesquisa e até algum ineditismo (o que, como já vimos, é uma raridade), mas no fundo, são apenas novas apostas e tentativas.

A imprensa contribui para esse cenário. Via de regra, qualquer “novo projeto” está estampado nas capas dos cadernos de cultura de nossos jornais e vira pauta de reportagens televisas, mesmo que os artistas sejam figurinhas carimbadas e repetidas de “projetos” anteriores, e tais matérias não questionam os possíveis fracassos passados, preferindo embarcar na onda de que “se é novo, é bom”.

Em São Luís, essa situação já chegou a tal ponto que construir uma carreira mais longa, que ultrapasse o primeiro ou o segundo disco, que dure mais de três ou quatro anos, penaliza o artista ou banda. Ele tem menos espaço na mídia, pois não é “novidade”, e, pior, é visto como “ultrapassado” por boa parte dessa nova classe artística “mutante”, que pula de galho em galho, quer dizer, de banda em banda, ou que está o tempo todo reinventando seu trabalho e muitas vezes até o nome artístico. Evidentemente, esta situação não explica a letargia de muitas bandas ou artistas mais veteranos. Não estou usando isso para justificar nenhum tipo de estagnação na carreira de ninguém, mas apenas lembrando que essa penalização existe, que é uma realidade.

Acho curioso como artistas que formam bandas de rock e, um ano depois, colocam chapéu e camisa listrada de sambista ou uma bata de grupo de raízes afro, conseguem notoriedade só porque se auto-metamorfosearam. A notícia é a metamorfose, quando a singularidade do fato deveria ser “o que não deu certo antes?”. É como se houvesse um esquema limitado de possibilidades artísticas ao qual se deva encaixar (a do sambista, a do grupo étnico, ao do som “blasé”, a da banda pesada, a da fusão de ritmos, a da paródia brega), e os artistas vão experimentando uma por uma (inclusive no visual, encaixando sua imagem ao som que revolveram tentar naquele momento). Como vivem mudando, concluo que parecem nunca se sentirem plenamente confortáveis em nenhuma delas.

Por isso, acho fundamental discutir a questão do objetivo de uma carreira. Já ouvi em outra roda de conversa frases como “esses novos artistas não querer nada com nada, só querem se divertir, tocam de graça, não levam nada a sério”, o que sinceramente não acredito - pelo menos penso que deve haver casos e casos. Mas desse tipo de crítica, e também pelo que observo, concluo que, de fato, os objetivos são um problema a se encarar.

A rigor, a música contemporânea de São Luís segue um relógio relativamente previsível. O artista aprende a tocar, forma uma banda ou se lança “solo”, grava uma música “autoral”, dissemina nas redes sociais e na Rádio Universidade, dá entrevista para os cadernos de cultura, faz um show de grande porte (ou a abertura no caso de show nacional), lança um EP e... começa a ser esquecido! Tudo isso em um intervalo de um ano, dois anos. Poderia exemplificar aqui vários casos.

Se levarmos em conta a satisfação pessoal, a notoriedade entre os pares e a sensação de pertencimento a um cenário que tem sido altamente elogiado, este ciclo já satisfaz o artista ou banda, e aí discutir objetivos é, de fato, uma bobagem. Mas se estamos pensando em algo grande (e vejo que se está pensando assim, pois já li diversos depoimentos de pessoas importantes e inteligentes, que sabem o que falam, qualificando o atual momento como “o mais importante da história da música maranhense”), creio que a efemeridade desse ciclo deva ser vista mais como obstáculo do que como virtude. Tenho dificuldade de pensar nesse nível de grandiosidade quando a existência de carreiras de um único disco ainda é predominante. Enquanto a música do Maranhão estiver sempre começando, ela nunca vai acontecer.

Dentro dessa lógica do objetivo, reconheço a adoção de uma estratégia muito inteligente, que é o apelo aos sites alternativos de divulgação musical. Há centenas deles espalhados pela imensidão da grande rede. Servem como anteparo para o verdadeiro lixo que se transformou o ranking de uma Billboard que entope as paradas de sucesso com música da pior qualidade. Assim, estar entre os 100 mais de uma Musicoteca ou do Jardim Elétrico, por exemplo, garante um ar diferenciado. Isso é verdade, não resta dúvida. Mas é necessário checar até que ponto estar ali faz do artista alguém realmente conhecido.

Há várias formas de se consolidar uma carreira – tem artista que se satisfaz só no nível do ciclo acima descrito, outros preferem ser reconhecidos somente como instrumentistas, enfim, é uma questão bem pessoal – mas eu penso que, de forma geral, artistas e bandas que se propõem a fazer a chamada música popular massiva (não estou falando especificamente de música “ruim”, apelativa e tal, mas da música que se consolidou ao longo do século XX, aquela que segue o padrão da indústria cultural, a música pop, músicas de 3 a 4 minutos, com letra compreensível, acordes naturais, arranjos lógicos, a música que a gente ouve e quer fazer igual) querem “fazer sucesso”, ter sua música conhecida pelo maior número de gente possível, ser reconhecidos nas ruas, dar entrevista, vender discos ou downloads, e ganhar dinheiro. Mesmo que façam música “de qualidade”, sabendo que não terão o mesmo sucesso diante da grande massa, querem atingir esses objetivos – o fã de uma dupla sertaneja pode não gostar de Chico Buarque, mas sabe que ele existe, porque Chico atingiu esses objetivos.

Essa visão maior é que, de forma geral, ainda não vejo no cenário da música atual de São Luís – na verdade, talvez nunca tenha havido, razão pela qual, a rigor, até hoje, apenas João do Vale, Alcione e Zeca Baleiro são vistos nacionalmente como artistas nascidos no Maranhão. Vai se saber o motivo, mas parece não haver interesse de nossos artistas em tentar cumprir esse ritual. Ter seu CD listado nesses sites alternativos só traz coisas positivas, isso nem se discute, mas ainda não é parte fundamental, na minha visão, do processo desse ritual. Os sites também gostam da efemeridade: há tanto artista ali que o valor simbólico da página parece aumentar quanto mais “novo artista” ela apresenta. Ora, em um lugar em que centenas e centenas são “vendidos” como importantes, nenhum deles o é. Não é de se estranhar que, diante disso, se você perguntar a uma pessoa comum se já ouvir falar em Renato Godá ou na Luz Marina, ela certamente não saberá do que você está falando.

Assim, quando vejo a celebração que há na hora em que um disco de nossos atuais artistas ou bandas aparecem nesses sites – e a notícia é logo disseminada nas redes sociais – vem à minha cabeça, por um lado, os parabéns ao artista e o regojizo por compartilhar de sua alegria, mas por outro, a pergunta “mas o que estar nesse site significa mesmo?”.

É possível que, com o tempo, esse universo alternativo substitua a máquina massiva de se fazer e promover música, mas, a meu ver, esse tempo ainda não chegou, embora seja fundamental que se venda a ideia de que pertencer ao nicho underground tenha o mesmo peso de estar na Billboard, pois é o melhor caminho para nossos artistas diante do discurso e da atitude que adotam.

Quero encerrar esse post reiterando que, apesar de todas as considerações que fiz, sou um entusiasta da música maranhense, um parceiro dos artistas, um divulgador de seus trabalhos, um produtor de músicas também, um sujeito ativo no cenário. Os pensamentos apresentados aqui têm o único objetivo de acrescentar elementos ao debate e estimular outros pensamentos que possam ser transformados em atitude em prol da nossa música. Com 21 anos de profissão jornalística e 25 de carreira musical (é isso mesmo!), me sinto não só gabaritado mas, principalmente, obrigado a contribuir de alguma forma.


Todos os que fazem, promovem, estimulam, pensam, elogiam e criticam a música contemporânea maranhense estão de parabéns e são importantíssimos para que ela seja ainda mais forte.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Amigos,

larguei de preguiça e decidi criar um blog pessoal. Na verdade, nem era exatamente preguiça. Havia incutido a ideia de que, para se ter um blog, a atualização constante era fundamental - o que continua sendo verdade - razão pela qual nunca quis me arriscar, ciente da minha falta de tempo. Mas como condição para que eu entrasse tardiamente nesse universo, impus a mim mesmo que não obedecerei a esse dogma. Escreverei quando tiver vontade.

Dito isso, gostaria também de apresentar algumas "regras" do blog. Para quem me conhece, não é segredo de que o fato de ser coordenador de uma FM e, ao mesmo tempo, músico, me coloca diante de desafios éticos constantes. Não vou me alongar sobre isso, até porque nada devo. Só quero dizer que, diante desse cenário, o blog se resumirá exclusivamente às minhas opiniões sobre coisas do mundo. Jamais as tomem como opiniões da FM em que trabalho ou da banda em que toco.

Isso significa que posso tecer críticas a um trabalho musical e, ao mesmo tempo, programar esse trabalho para tocar na FM ou tocar esse trabalho na banda em que toco. A FM não sou eu, a banda não sou eu.

Além disso, o blog se configura livre para versar sobre qualquer assunto, desde que, evidentemente, eu me sinta apto a abordá-lo. Gosto de escrever sobre música, sobre futebol, sobre política, sobre F-1, sobre indústria cultural, sobre novas mídias, sobre jornalismo, sobre televisão, sobre Facebook...

Então, dispenso rotulações. Aqui, haverá mistura entre a postura jornalística necessária para o mínimo de credibilidade e a posição pessoal necessária para o mínimo de debate com os eventuais curiosos em ler o que se postar.

Possivelmente, os textos opinativos serão majoritários. Vez por outra, postarei materiais de outras naturezas, como links para coisas interessantes, talvez alguma entrevista, uma ou outra música digna de registro, não sei. No entanto, desde já me coloco à disposição para a divulgação do que me for pedido, só não prometo celeridade, pois me conheço e sei que não vou entrar no blog o tempo todo. Pedidos com o máximo de antecedência ajudam muito...

No mais, este foi apenas um texto de apresentação. A primeira postagem está por vir - pode ser a qualquer momento, pode ser mês que vem... Espero que contribua de alguma forma para alguma coisa na vida de quem lê.

Abraços,
Paulo Pellegrini