Seguindo os exemplos de
Bruno Azevedo e
Reuben da Cunha ,
também vou dar meus pitacos sobre o momento cultural de São Luís. Certamente,
com muitas discordâncias, que não convém esmiuçar, já que tudo é questão de opinião
e de lugar de onde se fala. O que concordo mesmo é que muita coisa está
acontecendo, a ponto de instigar escritores tão talentosos a registrá-la em
palavras e um cara como eu, que não sou escritor, a propor mais elementos para
a discussão.
Parto do seguinte princípio: o momento é de se celebrar tudo
aquilo que os dois textos elencam, mas isso não significa deixar de refletir. O
principal ponto positivo, para mim, é a conquista definitiva de algo pelo qual muito
se lutou: a legitimação como “música maranhense” da música de vários estilos. Hoje,
a gente vê com naturalidade bandas e artistas pop cantando nas festas da
Prefeitura, por exemplo. Oficialmente, deixamos de ser apenas Carnaval e São
João.
Estamos vendo muita coisa boa: aumento da produção de discos
entre as bandas e novos artistas, aumento da quantidade de shows em geral,
aumento do trânsito de parte dessas bandas e novos artistas para outros
Estados, renovação de talentos e um processo em andamento de consolidação de um
público interessado e entusiasmado.
Esse cenário é digno de elogios, tanto que estes não faltam,
e boa parte deles são justos. Por isso, esse texto aqui não quer reverberar os
mesmos elogios que vemos em outros textos e nas redes sociais. O que farei a
seguir é apenas acrescentar às loas já disseminadas algumas observações que
julgo pertinentes, porque é o que vejo, de forma misturada: aspectos elogiáveis
e aspectos a serem discutidos.
Peço - sem grandes esperanças, admito, pelas experiências
vividas até agora - que eventuais leitores que não compartilhem das opiniões
não as tomem como agressão, ódio, vingança, desespero, porque é preciso
entender que também sou um entusiasmado de tudo o que está acontecendo, tenho e
ouço boa parte do que é produzido, aliás, diria que quase tudo. Justamente por
isso desenvolvi um senso crítico, que, reitero, me parece fundamental para o
debate de qualquer contexto musical.
Para começar, temos que rediscutir a ideia de que na música
contemporânea de São Luís só podem ser permitidos elogios. A crítica é intrínseca
à produção artística desde que o mundo é mundo, mas, pelo que percebo, ainda é
vista por aqui como “estraga-prazeres”, “inveja”, “cobiça”, “recalque”. Como já
ouvi em uma roda de conversa, “em São Luís, é proibido ter opinião”, sensação
que precisa ser modificada, pois a opinião gera reflexão, que gera ação, que
gera mudança.
Precisamos rever também o sentimento de que o artista, se
faz parte do atual cenário, tem qualidade indiscutível, quando na verdade, há trabalhos
de qualidade variável, como há de ser em qualquer lugar e em qualquer situação.
Tomo como critérios as questões técnicas (afinação, timbragem, mixagem,
execução) e estéticas (proposta, roupagem). No primeiro caso, ouço gravações
primorosas e outras deficientes, possivelmente na mesma proporção. Já no
segundo, percebo uma desproporcionalidade entre trabalhos com alguma
originalidade (poucos) e outros “fakes” (a esmagadora maioria).
A discussão sobre originalidade na música daria um tratado
sem fim – certamente nada é original nos dias de hoje, talvez nunca tenha sido –
mas dá para perceber quais artistas tentam impor alguma identidade a seu
trabalho e quais se preocupam em “seguir tendência”, possivelmente com medo de
não serem aceitos caso não se pareçam com alguém consagrado.
A natureza juvenil de boa parte do público que vem se
construindo nesse cenário – garotos e garotas que ainda não desbravaram
suficientemente o mundo da música e, portanto, pouco conhecem as referências
maiores que seus ídolos seguem – vem a calhar para esse tipo de artista. O cara
soa como “novo” para um público para o qual tudo é novo.
Não estou dizendo com isso que o trabalho “fake” é ruim.
Pelo contrário, há gravações belíssimas, execuções precisas, muitos músicos que
conheço e sei que são bons. Mas, a não ser que o objetivo seja fazer música
para curtição – e essa questão do “para que estou fazendo isso?” me parece
importante – um mínimo de identidade própria é vital para a consolidação de
qualquer carreira musical.
Claro, não sou generalista. Alguns estilos são inegociáveis.
Não se espera de uma banda de heavy metal, por exemplo, grandes preocupações
com identidade própria – o mesmo poderia se dizer do blues ou do samba de raiz.
O estilo define a música e a questão da qualidade recai mais para os requisitos
técnicos do que para a originalidade da proposta. Mas no amplo universo da
música brasileira e da chamada música pop, universo que tem sido muito
explorado em São Luís, tenho ressalvas para trabalhos que parecem desprezar a
busca por identidade.
Ao ouvir alguns deles, tenho a sensação de que o artista ou a
banda escolheram como modelo outro artista ou banda consagrados nacional ou
internacionalmente, escutaram-no à exaustão, identificaram seus riffs,
melodias, timbres e equalização de voz, compuseram músicas à sua imagem e
semelhança e decidiram gravar.
O resultado é um disco muitas vezes agradável, mas que
poderia ser de qualquer das bandas ou artistas que serviram de inspiração, com
o evidente desnível que as circunstâncias técnicas acarretam (incluindo aqui
pronúncias deficientes do Inglês, quando é o caso). Cria-se o “fake”, o som que
“já ouvimos antes”, só que sem contexto. Parece não haver a menor relação entre
a vida do artista, seu dia-a-dia, o bairro onde mora, as pessoas que conhece, a
situação do país, essas coisas, com a música que ele faz, que muitas vezes lembram
o frio europeu ou a sisudez das grandes metrópoles brasileiras. Letras em
português ajudariam muito a diminuir esse hiato.
A arte é livre, obviamente. O artista faz e deve fazer o que
quer, mas quando opta por esse tipo de divórcio ele cria um mundo paralelo,
cuja validade parece menor – até surgir outro som da moda e outro artista ou
banda a fazê-lo com a mesma total aplicação. A saída para isso é buscar uma identidade,
não tem outra.
Uma voz tão importante como a de
Pedro Alexandre Sanches
teceu inúmeros elogios a tudo o que viu quando esteve no último BR-135,
mas se vocês lerem com atenção ele se encantou mesmo foi com o clima de
efervescência, as excelentes pesquisas de Bruno Azevedo, Karla Freire, Ramúsyo
Brasil, a regionalidade de alguns artistas, a louvável iniciativa de Alê Muniz
e Luciana Simões em fazer tudo isso acontecer, o fato de estarmos em um lugar
esquecido com tanta coisa boa a mostrar, e não com a música maranhense ali mostrada
– com exceção da “brincadeira” de André Grolli e Bruno de satirizarem o brega.
O restante ele não comentou. Passaria pelo fato de não ter visto nada de
surpreendente justamente por não ter uma “cara” mais autêntica?
A longevidade dos artistas ou bandas é outro aspecto
interessante a ser discutido, a despeito da saudável e necessária efervescência
que a música maranhense atual tem vivido – e parte deste clima é justificado exatamente
pela renovação constante, que, na minha visão, é mais que constante, é acelerada
demais. O Projeto BR-135 nasceu no início de 2013 e apresentou em sua primeira
edição artistas que estavam despontando e que, simbolicamente, estavam prontos
para “cair na estrada”. 24 meses depois, duas das três atrações desta primeira
edição não existem mais. Bandas nascem e morrem em uma proporção notável,
fenômeno que muitos veem com naturalidade e que eu, ao contrário, vejo com
preocupação.
Ao criar bandas o tempo todo, os artistas parecem estar
sempre tentando, sempre começando do zero. Espertamente, de modo geral, esses
artistas souberam reverter para uma imagem positiva a imagem potencialmente
negativa deste “recomeçar o tempo todo” - pois isso significaria que não estão
acertando no que fazem. Expressões como “novo projeto”, “novo som”, “nova proposta”
são adotadas e vendidas como algo fantástico, fruto de muita pesquisa e até
algum ineditismo (o que, como já vimos, é uma raridade), mas no fundo, são
apenas novas apostas e tentativas.
A imprensa contribui para esse cenário. Via de regra,
qualquer “novo projeto” está estampado nas capas dos cadernos de cultura de
nossos jornais e vira pauta de reportagens televisas, mesmo que os artistas
sejam figurinhas carimbadas e repetidas de “projetos” anteriores, e tais
matérias não questionam os possíveis fracassos passados, preferindo embarcar na
onda de que “se é novo, é bom”.
Em São Luís, essa situação já chegou a tal ponto que
construir uma carreira mais longa, que ultrapasse o primeiro ou o segundo
disco, que dure mais de três ou quatro anos, penaliza o artista ou banda. Ele
tem menos espaço na mídia, pois não é “novidade”, e, pior, é visto como “ultrapassado”
por boa parte dessa nova classe artística “mutante”, que pula de galho em
galho, quer dizer, de banda em banda, ou que está o tempo todo reinventando seu
trabalho e muitas vezes até o nome artístico. Evidentemente, esta situação não
explica a letargia de muitas bandas ou artistas mais veteranos. Não estou
usando isso para justificar nenhum tipo de estagnação na carreira de ninguém,
mas apenas lembrando que essa penalização existe, que é uma realidade.
Acho curioso como artistas que formam bandas de rock e, um
ano depois, colocam chapéu e camisa listrada de sambista ou uma bata de grupo
de raízes afro, conseguem notoriedade só porque se auto-metamorfosearam. A
notícia é a metamorfose, quando a singularidade do fato deveria ser “o que não
deu certo antes?”. É como se houvesse um esquema limitado de possibilidades
artísticas ao qual se deva encaixar (a do sambista, a do grupo étnico, ao do
som “blasé”, a da banda pesada, a da fusão de ritmos, a da paródia brega), e os
artistas vão experimentando uma por uma (inclusive no visual, encaixando sua
imagem ao som que revolveram tentar naquele momento). Como vivem mudando,
concluo que parecem nunca se sentirem plenamente confortáveis em nenhuma delas.
Por isso, acho fundamental discutir a questão do objetivo de
uma carreira. Já ouvi em outra roda de conversa frases como “esses novos
artistas não querer nada com nada, só querem se divertir, tocam de graça, não
levam nada a sério”, o que sinceramente não acredito - pelo menos penso que
deve haver casos e casos. Mas desse tipo de crítica, e também pelo que observo,
concluo que, de fato, os objetivos são um problema a se encarar.
A rigor, a música contemporânea de São Luís segue um relógio
relativamente previsível. O artista aprende a tocar, forma uma banda ou se
lança “solo”, grava uma música “autoral”, dissemina nas redes sociais e na
Rádio Universidade, dá entrevista para os cadernos de cultura, faz um show de
grande porte (ou a abertura no caso de show nacional), lança um EP e... começa
a ser esquecido! Tudo isso em um intervalo de um ano, dois anos. Poderia
exemplificar aqui vários casos.
Se levarmos em conta a satisfação pessoal, a notoriedade
entre os pares e a sensação de pertencimento a um cenário que tem sido
altamente elogiado, este ciclo já satisfaz o artista ou banda, e aí discutir objetivos
é, de fato, uma bobagem. Mas se estamos pensando em algo grande (e vejo que se
está pensando assim, pois já li diversos depoimentos de pessoas importantes e
inteligentes, que sabem o que falam, qualificando o atual momento como “o mais
importante da história da música maranhense”), creio que a efemeridade desse
ciclo deva ser vista mais como obstáculo do que como virtude. Tenho dificuldade
de pensar nesse nível de grandiosidade quando a existência de carreiras de um único
disco ainda é predominante. Enquanto a música do Maranhão estiver sempre
começando, ela nunca vai acontecer.
Dentro dessa lógica do objetivo, reconheço a adoção de uma
estratégia muito inteligente, que é o apelo aos sites alternativos de divulgação
musical. Há centenas deles espalhados pela imensidão da grande rede. Servem
como anteparo para o verdadeiro lixo que se transformou o ranking de uma
Billboard que entope as paradas de sucesso com música da pior qualidade. Assim,
estar entre os 100 mais de uma Musicoteca ou do Jardim Elétrico, por exemplo,
garante um ar diferenciado. Isso é verdade, não resta dúvida. Mas é necessário
checar até que ponto estar ali faz do artista alguém realmente conhecido.
Há várias formas de se consolidar uma carreira – tem artista
que se satisfaz só no nível do ciclo acima descrito, outros preferem ser
reconhecidos somente como instrumentistas, enfim, é uma questão bem pessoal –
mas eu penso que, de forma geral, artistas e bandas que se propõem a fazer a
chamada música popular massiva (não estou falando especificamente de música “ruim”,
apelativa e tal, mas da música que se consolidou ao longo do século XX, aquela
que segue o padrão da indústria cultural, a música pop, músicas de 3 a 4
minutos, com letra compreensível, acordes naturais, arranjos lógicos, a música
que a gente ouve e quer fazer igual) querem “fazer sucesso”, ter sua música
conhecida pelo maior número de gente possível, ser reconhecidos nas ruas,
dar entrevista, vender discos ou downloads, e ganhar dinheiro. Mesmo que
façam música “de qualidade”, sabendo que não terão o mesmo sucesso diante da
grande massa, querem atingir esses objetivos – o fã de uma dupla sertaneja pode
não gostar de Chico Buarque, mas sabe que ele existe, porque Chico atingiu
esses objetivos.
Essa visão maior é que, de forma geral, ainda não vejo no
cenário da música atual de São Luís – na verdade, talvez nunca tenha havido,
razão pela qual, a rigor, até hoje, apenas João do Vale, Alcione e Zeca Baleiro
são vistos nacionalmente como artistas nascidos no Maranhão. Vai se saber o
motivo, mas parece não haver interesse de nossos artistas em tentar cumprir
esse ritual. Ter seu CD listado nesses sites alternativos só traz coisas
positivas, isso nem se discute, mas ainda não é parte fundamental, na minha
visão, do processo desse ritual. Os sites também gostam da efemeridade: há
tanto artista ali que o valor simbólico da página parece aumentar quanto mais “novo
artista” ela apresenta. Ora, em um lugar em que centenas e centenas são “vendidos”
como importantes, nenhum deles o é. Não é de se estranhar que, diante disso, se
você perguntar a uma pessoa comum se já ouvir falar em Renato Godá ou na Luz
Marina, ela certamente não saberá do que você está falando.
Assim, quando vejo a celebração que há na hora em que um
disco de nossos atuais artistas ou bandas aparecem nesses sites – e a notícia é
logo disseminada nas redes sociais – vem à minha cabeça, por um lado, os
parabéns ao artista e o regojizo por compartilhar de sua alegria, mas por
outro, a pergunta “mas o que estar nesse site significa mesmo?”.
É possível que, com o tempo, esse universo alternativo
substitua a máquina massiva de se fazer e promover música, mas, a meu ver, esse
tempo ainda não chegou, embora seja fundamental que se venda a ideia de que pertencer
ao nicho underground tenha o mesmo peso de estar na Billboard, pois é o melhor
caminho para nossos artistas diante do discurso e da atitude que adotam.
Quero encerrar esse post reiterando que, apesar de todas as
considerações que fiz, sou um entusiasta da música maranhense, um parceiro dos
artistas, um divulgador de seus trabalhos, um produtor de músicas também, um
sujeito ativo no cenário. Os pensamentos apresentados aqui têm o único objetivo
de acrescentar elementos ao debate e estimular outros pensamentos que possam
ser transformados em atitude em prol da nossa música. Com 21 anos de profissão
jornalística e 25 de carreira musical (é isso mesmo!), me sinto não só gabaritado
mas, principalmente, obrigado a contribuir de alguma forma.
Todos os que fazem, promovem, estimulam, pensam, elogiam e
criticam a música contemporânea maranhense estão de parabéns e são
importantíssimos para que ela seja ainda mais forte.