quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O dilema entre reescrever a história ou suprimi-la

Circula nas redes sociais um abaixo-assinado sugerindo ao Governo do Estado que a Maternidade Marly Sarney passe a se chamar Maternidade Maria Aragão.

Certamente, Maria Aragão foi uma pessoa pública mais próxima da população e todas as homenagens a ela serão sempre justas.

A proposta da mudança de nome, porém, deixa transparecer outra intenção: a sutil iniciativa de erradicar do mapa de São Luís a lembrança do nome “Sarney”.

A questão da Fundação da Memória Republicana passa um pouco por aí, e felizmente Flávio Dino tem tido equilíbrio para ponderar toda a complexidade que cerca o assunto.

Trata-se de um prédio público que, com o tempo, foi servindo de museu particular do ex-Presidente, ao mesmo tempo em que o acervo desse museu passou a ser de interesse público e não pode simplesmente ser jogado fora.

Queiramos ou não, os diversos governos anteriores foram legitimados pelo voto popular (exceção à volta de Roseana ao poder em 2009) e atribuir a prédios públicos nomes de parentes ou pessoas bem quistas fez parte dessa legitimação.

Em tempo: em 2013, o artigo da Constituição Federal que proíbe bens públicos de receber nomes de pessoas vivas foi redigido, abrindo margem para que isso pudesse ocorrer.

Há duas semanas, Flávio Dino anunciou decreto que impede, daqui para a frente, o batismo de prédios do Estado com nomes de pessoas vivas. A medida foi o combustível para que surgissem vozes querendo retroagir na questão, embora o decreto em si não seja retroativo.

O que fazer com os prédios já batizados, como a Maternidade Marly Sarney, o Fórum Desembargador Sarney Costa, a ponte Bandeira Tribuzzi, o Hospital Carlos Macieira, etc?

A imagem de duas ou três pessoas próximas ao governador, sentadas ao redor de uma mesa, decidindo que prédios devem mudar de nome, parece pretensiosa.

Outorgam para si o papel de juiz da coisa pública, papel que o próprio slogan de campanha do candidato vencedor desautoriza em sua semântica: “vamos governar para todos”. “Todos” é palavra inclusiva; o julgamento sobre quem merece ou não ser nome de edificação, por seu turno, é excludente.

Por mais que estejamos nos referindo a uma “herança maldita”, dos problemas do Maranhão que o governador deve se preocupar em resolver, este é dos mais irrelevantes.

Deve-se separar o desafio de reescrever a história do Maranhão da tentação de suprimir dessa história sujeitos e ações que, mal ou bem, a fizeram. Pelo ângulo inverso, os regimes ditatoriais costumam fazer semelhante: assumem o poder e expurgam tudo e todos que simbolizam o contraditório.

De certa forma, o rebatismo de prédios públicos pode reduzir o atual governo à mesma pequenez que quer combater, a de governar para “amigos” e “escolhidos”, a começar pelo simbolismo das eventuais renomeações.

Até porque, se partirmos para a reavaliação de nomes pelo que o homenageado representa, Luís Rei de França, o IX, apesar de santo, está, enquanto mortal, longe de ser unanimidade entre os historiadores – conversor de judeus, subjugador do povo pela fé para ampliar poder e posses da Igreja Católica, no século XIII.

Sem ir muito longe no tempo, o ex-governador João Castelo dá nome ao estádio de futebol, e o decreto de Flávio Dino inclui entre os nomes proibidos para batizar bens públicos, além dos vivos, pessoas que violaram direitos humanos durante o Regime Militar e que tenham sido incluídas no Relatório Final da Comissão da Verdade.

Embora não tenha sido citado em tal relatório, Castelo tem em sua biografia a repressão violenta aos estudantes em 1979.

Entretanto, hoje aliado de Dino, o ex-governador está sendo poupado. Seu nome não entrou nem deve entrar na pauta dos rebatismos.


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