Circula nas redes sociais um abaixo-assinado sugerindo ao
Governo do Estado que a Maternidade Marly Sarney passe a se chamar Maternidade
Maria Aragão.
Certamente, Maria Aragão foi uma pessoa pública mais próxima
da população e todas as homenagens a ela serão sempre justas.
A proposta da mudança de nome, porém, deixa transparecer outra
intenção: a sutil iniciativa de erradicar do mapa de São Luís a lembrança do
nome “Sarney”.
A questão da Fundação da Memória Republicana passa um pouco
por aí, e felizmente Flávio Dino tem tido equilíbrio para ponderar toda a
complexidade que cerca o assunto.
Trata-se de um prédio público que, com o tempo, foi servindo
de museu particular do ex-Presidente, ao mesmo tempo em que o acervo desse
museu passou a ser de interesse público e não pode simplesmente ser jogado
fora.
Queiramos ou não, os diversos governos anteriores foram
legitimados pelo voto popular (exceção à volta de Roseana ao poder em 2009) e atribuir
a prédios públicos nomes de parentes ou pessoas bem quistas fez parte dessa
legitimação.
Em tempo: em 2013, o artigo da Constituição Federal que proíbe
bens públicos de receber nomes de pessoas vivas foi redigido, abrindo margem
para que isso pudesse ocorrer.
Há duas semanas, Flávio Dino anunciou decreto que impede,
daqui para a frente, o batismo de prédios do Estado com nomes de pessoas vivas. A medida foi o
combustível para que surgissem vozes querendo retroagir na questão, embora o
decreto em si não seja retroativo.
O que fazer com os prédios já batizados, como a Maternidade
Marly Sarney, o Fórum Desembargador Sarney Costa, a ponte Bandeira Tribuzzi, o
Hospital Carlos Macieira, etc?
A imagem de duas ou três pessoas próximas ao governador,
sentadas ao redor de uma mesa, decidindo que prédios devem mudar de nome,
parece pretensiosa.
Outorgam para si o papel de juiz da coisa pública, papel que
o próprio slogan de campanha do candidato vencedor desautoriza em sua
semântica: “vamos governar para todos”. “Todos” é palavra inclusiva; o
julgamento sobre quem merece ou não ser nome de edificação, por seu turno, é
excludente.
Por mais que estejamos nos referindo a uma “herança maldita”,
dos problemas do Maranhão que o governador deve se preocupar em resolver, este
é dos mais irrelevantes.
Deve-se separar o desafio de reescrever a história do
Maranhão da tentação de suprimir dessa história sujeitos e ações que, mal ou
bem, a fizeram. Pelo ângulo inverso, os regimes ditatoriais costumam fazer
semelhante: assumem o poder e expurgam tudo e todos que simbolizam o
contraditório.
De certa forma, o rebatismo de prédios públicos pode reduzir
o atual governo à mesma pequenez que quer combater, a de governar para “amigos”
e “escolhidos”, a começar pelo simbolismo das eventuais renomeações.
Até porque, se partirmos para a reavaliação de nomes pelo
que o homenageado representa, Luís Rei de França, o IX, apesar de santo, está,
enquanto mortal, longe de ser unanimidade entre os historiadores – conversor de
judeus, subjugador do povo pela fé para ampliar poder e posses da Igreja
Católica, no século XIII.
Sem ir muito longe no tempo, o ex-governador João Castelo dá
nome ao estádio de futebol, e o decreto de Flávio Dino inclui entre os nomes proibidos
para batizar bens públicos, além dos vivos, pessoas que violaram direitos
humanos durante o Regime Militar e que tenham sido incluídas no Relatório Final
da Comissão da Verdade.
Embora não tenha sido citado em tal relatório, Castelo tem
em sua biografia a repressão violenta aos estudantes em 1979.
Entretanto, hoje
aliado de Dino, o ex-governador está sendo poupado. Seu nome não entrou nem deve entrar na pauta dos rebatismos.
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