O recente episódio envolvendo a queixa de um jornalista local
sobre atraso de pagamentos da Prefeitura a profissionais da imprensa me
convence ainda mais da necessidade de discussão sobre o jornalismo militante
que tanto caracteriza a profissão no Brasil.
É um assunto delicado porque mexe com pontos de vista sobre
jornalismo e acusações veladas, por isso a análise deve ser cuidadosa, mas nem
por isso acrítica.
Parto do princípio – e deixo claro a meus alunos – de que
jornalismo e militância política não devem andar juntos. Por mais que grande
parte dos profissionais ingresse na profissão com desejo de “mudar o mundo” e
por mais que muitos deles realmente acreditem que determinado grupo político ou
posicionamento ideológico representem “o bem”, a atividade jornalística deve
sobrepor essas idiossincrasias. O jornalismo, enquanto campo do conhecimento,
não tem partido, não tem ideologia, não é simpático a ninguém.
Claro, não dá para separar jornalismo de dinheiro. O jornalismo é
filho do capitalismo, quer dizer, o que conhecemos hoje sobre conceitos,
teorias e práticas nasce nas redações, que, por sua vez, pertencem a empresas
de comunicação, as quais, para sobreviverem, trabalham sob a lógica do capital.
Jornalismo é, portanto, um negócio, dessa forma, suscetível aos humores do
mercado.
Mesmo assim, é dever do jornalismo do dia-a-dia conseguir
ser apartidário, não-ideológico e não-simpático. É na publicidade que a empresa
deve auferir lucros e essa é uma decisão possível. O gosto pelo dinheiro é que
cria o discurso de que a redação é necessariamente vendável. Deve-se pensar em
formas de sustentação do negócio sem por na prateleira a profissão enquanto
tal, ainda mais nos tempos atuais em que, no mundo digital, os custos de
produção da informação diminuíram.
Porque o que acontece é que o grau de influência
político-partidária nos textos é quase sempre um fenômeno anterior. Muitas
vezes, não são os jornais ou blogs que se alinham às ideologias partidárias;
eles são criados por essas ideologias e para esses fins. Defendo uma
transparência nessa relação. O que chamam de controle social da informação deve
incluir um rastreamento dos veículos de comunicação (no sentido de saber de
onde vem todo o dinheiro) e apresentar esses dados ao leitor, que tem o direito
de saber por que está lendo o que lê.
Esse tipo de controle é tão fundamental quanto os outros,
sobre democratização dos meios, fim dos oligopólios ou ética na comunicação. De
nada adiantam essas conquistas se o jornalismo continuar aliado ao poder
público de quem recebe dinheiro.
Na Europa e nos Estados Unidos, é comum se pagar para
pessoas darem entrevistas. Esse é um argumento comum para celebrar a “idoneidade”
do jornalismo brasileiro. Só que lá as coisas são feitas às claras.
Durante anos, os jornalistas acusaram as redações de
cercearem seu trabalho, mas quando têm a chance de ser independentes, muitos
preferem um jornalismo “livre para a dependência". A alegação de que é uma
profissão como qualquer outra, que precisa de dinheiro para sobreviver, e que
esse dinheiro é fruto da publicidade oficial, pode ser refutada pela lida nos
posts ou textos e a percepção de que a linha editorial, formalmente não vendida,
é sempre simpática à linha política do grupo que faz a publicidade.
Há uma modalidade especial para isso, que é livre no Brasil
(mas restrita em países como Portugal, França e Bélgica), a Assessoria de
Imprensa. Seria também bem tranquilo se essa relação entre imprensa militante e
governantes fosse oficializada e essa seria outra medida interessante do
controle social da informação.
O fato é que para quem pensa como eu, é extremamente desconfortante
observar a bipolaridade do jornalismo local, em que as pautas respondem
primeiro ao objetivo de agradar aos aliados e confrontar os adversários, e
depois ao de informar o leitor. O que fez o jornalista que reclamou dos atrasos
de pagamento da Prefeitura que, segundo ele, prioriza o pagamento a pastores e
diáconos e deixa de lado os jornalistas “que ajudaram o prefeito a se eleger” foi
mais que um desabafo ou cobrança: foi uma confissão, tanto que o post foi
prontamente retirado (mas pode ser encontrado no blog do Ed Wilson) e a Prefeitura
imediatamente negou o fato.
Não é porque a política local é bipolarizada que o
jornalismo praticado por aqui tenha que ser. Aliás, a própria imprensa ajuda a
construir a bipolaridade dessa cena política. Por que é tão difícil uma terceira
via na imprensa, o desenvolvimento de um jornalismo que olhe para os dois lados
com a mesma distância, o mesmo senso crítico e a mesma responsabilidade? Nada
impede que isso ocorra, a não ser o comportamento dos próprios jornalistas.
Um país democrático precisa de uma imprensa vigilante. Assim,
imprensa e governo não podem andar juntos. Nem imprensa e oposição. Aliás, imprensa
e ninguém. A ideia de uma imprensa governista serve ao discurso único ou à
divinização do governante. Porque governo não é povo, governo presta serviço ao
povo. Então, serviços mal prestados são pauta para a imprensa. Serviços bem
prestados devem ser rotina, e rotina não é pauta em jornalismo. O que vemos nas
capas dos jornais locais como notícias muitas vezes são a personificação na
presidente, no governador ou no prefeito de ações rotineiras, fenômeno aliás
semelhante ao que ocorre em alguns países europeus, como França, Portugal e
Itália, que praticam também um jornalismo estatal, que transforma o ato de
governar em pauta.
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