sábado, 24 de janeiro de 2015

Por que a música brasileira acabou?

A música brasileira, da forma como um dia foi consolidada, acabou.

O que os brasileiros do século XXI conhecem, nas ruas, nas praças, nas festas, ou é música brasileira descartável, ou a música internacional, ou a música de sua localidade, quando ela é minimamente estimulada.

Aquele arcabouço de produções que tornou inesquecível gente do naipe de Villa-Lobos, Tom Jobim, Pixinguinha, Chico Buarque, Caetano, Gil e tantos outros virou peça de museu, ou habita o imaginário de quem um dia o conheceu.

Tudo bem, está tudo aí na Internet. Mas sem sofrer recall no dia-a-dia, desperta pouco interesse.

A música brasileira é hoje apenas repertório de cantores de boteco ou de shopping. No máximo, trilha sonora de novela ou símbolo de status para jovens que a reinterpretam.

O fato é que ela não é mais produzida, nem pelos próprios atores que a consagraram.

Das 100 músicas mais tocadas do país, nenhuma pertence à chamada MPB.

Jovens talentos que tentam prossegui-la estão escondidos no limbo do alternativo. Pior, muitas vezes pouco acrescentam, porque repetem as fórmulas dos seus ídolos.

Os últimos grandes discos de Gilberto Gil, Caetano e Chico têm mais de 15 anos. “Quanta”, “Livro” e “Paratodos” foram os últimos registros realmente interessantes dessa turma, com músicas que ainda “pegaram” no público.

De lá pra cá, eles e os outros cardeais da MPB alternam discos inexpressivos e lançamentos ao vivo dos mesmos sucessos de sempre.

A falência das gravadoras não é culpada. Senão, música nenhuma de ninguém faria mais sucesso, e o que mais existe por aí é hit.

Pode-se alegar que parte dessa turma já está setentona, o que sugeriria uma natural desaceleração produtiva. Como explicar, no entanto, que o fenômeno teve origem quando ainda eram cinquentões?

E por que gente como Zeca Baleiro, Moska, Chico César e Lenine também representam essa música que acabou? Eles parecem já terem feito suas obras-primas e, mesmo relativamente jovens, vivem da fama que conquistaram com elas.

Não sei ao certo qual foi o problema. Esgotamento criativo? Falta de adaptação aos novos tempos? Emburrecimento coletivo? A postura excludente da mídia?

É um fenômeno de difícil explicação. Um cara na idade de Moska não pode estar sofrendo esgotamento criativo. Esses artistas são estruturados o suficiente para se adaptar a qualquer tempo, graças a assessorias competentes que entenderiam qualquer plataforma de distribuição de música. E dizer que a população está mais “burra”, com tanta informação ao alcance, é pretensioso.

A mídia sim colabora para que essa música tenha caído no esquecimento (apesar de ter sido ela quem a elevou ao olimpo), pois quase não mais a divulga.

Só que mídia vive de novidades e, quando não há novidade ou esta não é interessante, dentro do que conhecemos como MPB, ela silencia.

Isto significa que a maior responsabilidade está em quem produz. Ainda acredito que se alguém compor uma nova “Garota de Ipanema”, essa música vai estourar.

O ponto é esse: alguém ainda tem capacidade para fazer música “de qualidade” e “vendável”?

Existem centenas de compositores de músicas “ruins”, de refrões fáceis, da mesma sequência de acordes, que falam mais para o corpo do que para a mente. O espaço deles está garantido nos Faustões e Altas Horas da vida.

Mas onde estão os compositores das músicas minimamente mais elaboradas, relativamente originais e que fazem mais pensar do que rebolar?

Eles não estão só envelhecendo ou regravando seus próprios sucessos. Eles também estão escondidos e, pior, muitas vezes optando estar escondidos.

A Internet nasceu celebrada como a antítese da indústria cultural, o lugar da liberdade de criar, de divulgar e de gerenciar a própria arte. Passadas uma ou das décadas, o que vemos é que a liberdade não gerou visibilidade.

A Internet tem como público a própria Internet. O artista lá originado e que ainda só está lá, porque acha que assim se mantém “independente” e “atualizado das tendências”, é um ilustre desconhecido no mundo real.

Criou-se uma distância entre a música que domina os lugares reais e a que circula nas redes e, infelizmente para quem gosta de “boa” música, coube à música “ruim” dominar os lugares de verdade.

Por isso, por mais que possa haver gente fazendo música interessante, enquanto continuarem no universo alternativo, assistiremos a mais e mais duplas sertanejas e lepo-lepos despontarem.

As demonizadas gravadoras pelo menos possuíam “olheiros” e realizavam audições para selecionar artistas. Com tudo mundo “livre” para gravar e se autopromover, há um exército de artistas perdidos, correndo feito barata tonta sem ter a menor ideia do que fazer para alcançar notoriedade.

É necessário quebrar o discurso de que basta a Internet. Levando em conta a quase infinita quantidade de músicas que circulam nos sites de compartilhamento, as que realmente “acontecem” obedecem a porcentagens desprezíveis de possibilidade.

O primordial é concorrer com as bobagens que escutamos produzindo algo realmente interessante e para todo mundo conhecer. E, claro, saber gerenciar a carreira, correr o mundo, aparecer na TV.

Como fazer? Pressuponho que estar fisicamente no mundo, fazer pequenas coisas como mostrar a música para os amigos sem que eles tenham que estar online, e grandes como fazer shows, levar o material para a grande mídia e ter uma música que “pegue” e seja “de qualidade” são passos fundamentais.

Com exceção da parte sobre “qualidade”, é exatamente isso o que os caras da música “ruim” fazem.


A ressurreição da música brasileira passa por essa postura também. Porque morta ela já esta.

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