A música brasileira, da forma como um dia foi consolidada,
acabou.
O que os brasileiros do século XXI conhecem, nas ruas, nas
praças, nas festas, ou é música brasileira descartável, ou a música
internacional, ou a música de sua localidade, quando ela é minimamente
estimulada.
Aquele arcabouço de produções que tornou inesquecível gente
do naipe de Villa-Lobos, Tom Jobim, Pixinguinha, Chico Buarque, Caetano, Gil e
tantos outros virou peça de museu, ou habita o imaginário de quem um dia o
conheceu.
Tudo bem, está tudo aí na Internet. Mas sem sofrer recall no
dia-a-dia, desperta pouco interesse.
A música brasileira é hoje apenas repertório de cantores de
boteco ou de shopping. No máximo, trilha sonora de novela ou símbolo de status
para jovens que a reinterpretam.
O fato é que ela não é mais produzida, nem pelos próprios
atores que a consagraram.
Das 100 músicas mais tocadas do país, nenhuma pertence à
chamada MPB.
Jovens talentos que tentam prossegui-la estão escondidos no
limbo do alternativo. Pior, muitas vezes pouco acrescentam, porque repetem as
fórmulas dos seus ídolos.
Os últimos grandes discos de Gilberto Gil, Caetano e Chico
têm mais de 15 anos. “Quanta”, “Livro” e “Paratodos” foram os últimos registros
realmente interessantes dessa turma, com músicas que ainda “pegaram” no
público.
De lá pra cá, eles e os outros cardeais da MPB alternam
discos inexpressivos e lançamentos ao vivo dos mesmos sucessos de sempre.
A falência das gravadoras não é culpada. Senão, música
nenhuma de ninguém faria mais sucesso, e o que mais existe por aí é hit.
Pode-se alegar que parte dessa turma já está setentona, o
que sugeriria uma natural desaceleração produtiva. Como explicar, no entanto,
que o fenômeno teve origem quando ainda eram cinquentões?
E por que gente como Zeca Baleiro, Moska, Chico César e
Lenine também representam essa música que acabou? Eles parecem já terem feito
suas obras-primas e, mesmo relativamente jovens, vivem da fama que conquistaram
com elas.
Não sei ao certo qual foi o problema. Esgotamento criativo?
Falta de adaptação aos novos tempos? Emburrecimento coletivo? A postura
excludente da mídia?
É um fenômeno de difícil explicação. Um cara na idade de
Moska não pode estar sofrendo esgotamento criativo. Esses artistas são
estruturados o suficiente para se adaptar a qualquer tempo, graças a
assessorias competentes que entenderiam qualquer plataforma de distribuição de
música. E dizer que a população está mais “burra”, com tanta informação ao alcance,
é pretensioso.
A mídia sim colabora para que essa música tenha caído no
esquecimento (apesar de ter sido ela quem a elevou ao olimpo), pois quase não
mais a divulga.
Só que mídia vive de novidades e, quando não há novidade ou
esta não é interessante, dentro do que conhecemos como MPB, ela silencia.
Isto significa que a maior responsabilidade está em quem
produz. Ainda acredito que se alguém compor uma nova “Garota de Ipanema”, essa
música vai estourar.
O ponto é esse: alguém ainda tem capacidade para fazer
música “de qualidade” e “vendável”?
Existem centenas de compositores de músicas “ruins”, de
refrões fáceis, da mesma sequência de acordes, que falam mais para o corpo do
que para a mente. O espaço deles está garantido nos Faustões e Altas Horas da
vida.
Mas onde estão os compositores das músicas minimamente mais elaboradas,
relativamente originais e que fazem mais pensar do que rebolar?
Eles não estão só envelhecendo ou regravando seus próprios sucessos.
Eles também estão escondidos e, pior, muitas vezes optando estar escondidos.
A Internet nasceu celebrada como a antítese
da indústria cultural, o lugar da liberdade de criar, de divulgar e de
gerenciar a própria arte. Passadas uma ou das décadas, o que vemos é que a
liberdade não gerou visibilidade.
A Internet tem como público a própria Internet. O artista lá
originado e que ainda só está lá, porque acha que assim se mantém “independente”
e “atualizado das tendências”, é um ilustre desconhecido no mundo real.
Criou-se uma distância entre a música que domina os lugares
reais e a que circula nas redes e, infelizmente para quem gosta de “boa”
música, coube à música “ruim” dominar os lugares de verdade.
Por isso, por mais que possa haver gente fazendo música
interessante, enquanto continuarem no universo alternativo, assistiremos a mais
e mais duplas sertanejas e lepo-lepos despontarem.
As demonizadas gravadoras pelo menos possuíam “olheiros” e
realizavam audições para selecionar artistas. Com tudo mundo “livre” para
gravar e se autopromover, há um exército de artistas perdidos, correndo feito
barata tonta sem ter a menor ideia do que fazer para alcançar notoriedade.
É necessário quebrar o discurso de que basta a Internet. Levando
em conta a quase infinita quantidade de músicas que circulam nos sites de
compartilhamento, as que realmente “acontecem” obedecem a porcentagens
desprezíveis de possibilidade.
O primordial é concorrer com as bobagens que escutamos
produzindo algo realmente interessante e para todo mundo conhecer. E, claro,
saber gerenciar a carreira, correr o mundo, aparecer na TV.
Como fazer? Pressuponho que estar fisicamente no mundo, fazer
pequenas coisas como mostrar a música para os amigos sem que eles tenham que
estar online, e grandes como fazer shows, levar o material para a grande mídia
e ter uma música que “pegue” e seja “de qualidade” são passos fundamentais.
Com exceção da parte sobre “qualidade”, é exatamente isso o
que os caras da música “ruim” fazem.
A ressurreição da música brasileira passa por essa postura
também. Porque morta ela já esta.
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